sexta-feira, 20 de maio de 2011

Conto : Parte II

A manhã estava demasiada fria para o normal, isso significava que poucos animais sairiam de seus abrigos para caçar hoje, e os que caçariam, eram os que ele mais temia encontrar. Mas ele sabia enfrentar os perigos da floresta, sempre soube. Não havia animal daquelas regiões que não o conhecesse, nem o respeitasse. Ele fazia o mesmo com os próprios, os considerava irmãos, os considerava tão importantes quanto ele mesmo, mas necessitava deles para sobreviver, e era com grande honra que os caçava e os respeitava. Não derramaria sangue de nenhum animal, senão pela própria defesa, ou pela sua sobrevivência. Ao matar um irmão, reverenciava seu corpo, e o agradecia pelo ganho. Também agradecia aos seus deuses, por permitirem que ele conseguisse obter o necessário para sua própria sobrevivência.
Apagou sua fogueira, cobriu-se com sua capa de tecido grosso, jogou sua sacola de mantimentos nas costas, e então saiu de seu abrigo. Estava com um arco feito com a madeira de um carvalho forte em sua mão, sua aljava estava atrás de seu ombro direito, nela continham cerca de 30 flechas pequenas, porém causavam um ferimento bastante considerável em quem fosse atingido. Eram feitas de uma madeira forte e escura, muito usada pelos caçadores pela sua leveza e rigidez. Em sua cintura usava um cinto de couro, aonde ficavam guardadas duas facas pequenas, uma delas simples, outra com uma envergadura em sua lâmina, e com desenhos no pequeno cabo prateado. Provavelmente foi feita por algum ferreiro de terras distantes, e lhe dada por merecimento. Também havia uma espada, arma que mais apreciava. Era uma espada comum, de tamanho médio, não muito longa, nem muito curta. Seu cabo era negro, com adornos prateados nas bordas. Sua lâmina tinha uma cor prateada, porém ofuscada pelo tempo. Usava uma bota de couro grosso e pesado, mesmo que muitas vezes o dificultasse para caminhar na neve, ele tinha o costume de seus pés, e andava com passos suaves, mas não lentos.
Ao sair de seu abrigo, sentiu novamente o vento frio em seu rosto, e cobriu a cabeça com seu capuz com uma coloração verde musgo, de tecido também muito grosso, se proteger do frio era uma prioridade. O abrigo se situava em uma fenda localizada em um amontoado de pedras grandes, talvez tenha sido a toca de um velho lince há algum tempo, ou de lobos. Mas a julgar pelo tamanho, não parecia que linces ou lobos se abrigassem ali. Foi descendo o rochedo com cautela, as pedras estavam escorregadias demais, e uma queda do local em que estava, poderia doer bastante. Enquanto descia, observava do alto a floresta que ficava abaixo do rochedo, procurava achar novamente a trilha de sua caça, o cervo. Mas com naquela escuridão à aquela altura, ele não acharia muita coisa...
Finalmente chegou ao pé do amontoado de pedras, e ali o vento já não soprava tão forte. Continuou adentrando na escura floresta. Observava cada árvore, cada moita, cada poça de água. Seu olhar sempre calmo e atencioso iria encontrar o rastro, caso ali estivesse. Mas não o achava, e por algum motivo ele desconfiava que algum morador da floresta estava brincando com ele, alguma criatura brincalhona, das quais ele não confiava e não gostava. Assim continuou caminhando por entre as árvores, e quanto mais entrava na floresta, mais altas as árvores se tornavam, até que não se via luz alguma aonde estava. Ele conhecia bem aonde estava, e continuou andando como se estivesse vendo toda a mata em luz clara. Estava sempre atento à qualquer barulho na floresta, mas só ouvia sua respiração, nada mais. Algumas vezes durante a caminhada, pensava ter visto algo se movimentando à sua frente, às vezes longe, às vezes perto. Mas não sabia o que poderia ser, talvez um animal, talvez vários animais, ou então alguma criatura curiosa, que o espreitava só por simples vontade. Ele não as temia, e nem elas à ele, apenas conviviam sem as interromper em sua vida.
Após cerca de duas horas de caminhada no escuro da floresta, viu o primeiro raio de luz entre a copa das árvores chegar ao chão, isso o alegrou por um momento, a escuridão da floresta não o ajudava em sua busca. Caminhava em direção norte, pois sabia que milhas à frente existia um lago, onde os animais costumavam parar para descansar e beber água. Talvez lá ele reencontrasse a trilha de sua caça.
Se passou mais uma hora de caminhada, e enfim chegou ao lago. Há tempos ele não visitava este contemplado lugar, há tempos não deslumbrava dessa vista tão bela. Chegou ao lago pela margem sul, subiu em uma árvore, para ter uma melhor vista, assim encontrou um galho grosso e forte, onde poderia se acomodar bem e ter uma visão ampla do lago. retirou sua sacola das costas, e de dentro dela puxou um cantil de couro fino, estava quase vazio, e ele precisava reabastecer. Também retirou um pedaço de pão amarelo, feito de milho, muito semelhante à um bolo, porém mais consistente. Apreciava muito disso, o nutria bastante, e em caçadas era o que comia com mais frequência. Desceu da árvore e foi caminhando calmamente até a beira do lago, parecia não se preocupar com mais nada, havia deixado seu cinto, seu arco e sua aljava em cima do forte galho. Todos os seres vivos da floresta consideravam o lago como um lugar sagrado, por isso não haveria derramamento de sangue, ou qualquer luta ali. E caso ali encontrasse o cervo, ele esperaria até que se afastasse dali, para que pudesse finalmente abatê-lo.
Voltou à árvore e se acomodou novamente, então iniciou a sua primeira refeição do dia, que provávelmente sería a única, caso sua busca não fosse finalizada até o anoitecer. O pão já estava quase acabando, e logo não iriam sobrar suprimentos para mais dias de caçada. Enquanto fazia seu desjejum, observava o lago, observava alguns pássaros que ali voavam, e relaxava como não fazia há um bom tempo...
O lago se extendia por uma parte da floresta, fazia uma curva na margem oeste que adentrava em um paredão rochoso, com pinheiros em sua margem. O lago era negro, mas tinha uma beleza não muito conhecida por pessoas de longe. Suas margens eram envoltas pela floresta, passando uma impressão de que a floresta foi posta ali para proteger o lago. Essas terras eram diferentes das demais, como se os deuses tivessem as feito com um carinho e uma atenção diferente superios às outras. Mas havia uma tristeza no ar, uma tristeza que sempre existiu, e sempre existirá ali.
Enquanto observava a calmaria presente no lugar, ouvia dentro de seu coração uma música suave, como um encantamento. Mas era uma música que trazia paz, uma melodia que o fazia relembrar de momentos em sua vida, onde várias coisas se passaram pela sua mente. Até que fechou os olhos e ouviu o sussurro do vento em seus ouvidos. A brisa o confortava por todo o corpo, ele se sentia bem...


Segunda parte postada, pessoas errantes. Domingo sai a terceira parte! Inté, warriors! -(

4 comentários:

  1. Você tá destruindo na escrita, tá muuuuuito foda, domingo estarei aqui para ler a terceira parte, vc descreve e narra os acontecimentos perfeitamente.

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  2. A segunda parte ficou melhor. Consegui fazer a imaginação de tudo que ele está usando, e acompanhar o ritmo das coisas.

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  3. Gostei. Tu escreve muito bem, Pedrinho. dorys
    Não sei porque, mas me lembrei de Mulan. -Q

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